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1/12/2002 - Diário de Notícias
O Dia em que os Filipes Partiram
- ANTÓNIO VALDEMARO 1 de Dezembro de 1640 é uma efeméride que, pelo seu significado histórico e conteúdo emocional, tem sido objecto de leituras diversas, particularmente, nos momentos em que se agudizam as crises e se procuram as raízes da identidade. Políticos, intelectuais e empresários, de vários quadrantes, são hoje da opinião que vínculos clássicos de independência e soberania nacional se extinguiram perante uma forte e progressiva hegemonia económica de Espanha e a preponderância que, em relação a Portugal, desempenha na União Europeia. Outros não se manifestam de modo tão radical e limitam-se a dizer que estamos na iminência desse risco, se não existir vontade política para a modernização do País e viabilizar as reformas estruturais que a Espanha fez.
É um dado adquirido e um caminho a prosseguir a cooperação com a Galiza a Catalunha, a Estremadura e, recentemente, Leão e Castela, com a criação de um Centro de Estudos Ibéricos, com sede na Guarda e direccionado para Salamanca. E Madrid, de quem as próprias regiões de Espanha desconfiam e estão em conflito? Como é evidente não se pode dissociar do actual quadro das realidades peninsulares. E como se deverá, também, encarar hoje o iberismo e a federação ibérica, um dos temas escaldantes do século XIX que uma personalidade da estatura de Antero de Quental não deixou de preconizar no âmbito dos objectivos programáticos das Conferências Democráticas do Casino?
A historiografia romântica do século XIX e os seus continuadores no século XX circunscreveram a Restauração ao movimento de um grupo de 40 personalidades que avançou do Palácio Almada, no Largo de São Domingos, até ao Paço da Ribeira para uma execução sumária de Miguel de Vasconcelos, expulsar outros agentes do rei de Espanha e repor a soberania portuguesa, depois de 60 anos de ocupação filipina.
Todavia, o processo da Restauração é a consequência de uma acção política, diplomática e militar que, antes e depois de 1640, se prolongou durante 30 anos. Houve apoios internacionais muito significativos. Entre outros da França e da Catalunha. Mais ainda: Luísa de Gusmão, mulher do duque de Bragança, filha dos Medina Sidónia, da família dos Gusmans , da Andaluzia, era inimiga confessa dos Filipes. Terá contribuído para convencer seu marido, para aceitar a coroa, que lhe ofereceram quando da conjuração. Para além da euforia do hino, das torrentes inflamadas de palavras sonoras mas quantas vezes desprovidas de conteúdo, a independência de Portugal assenta, numa perspectiva nacional e europeia e de solidariedade responsável e actuante, na existência de um Estado de direito, na garantia de condições de liberdade e segurança, que asseguram o presente e o futuro das populações, o reconhecimento do património cultural e a garantia de funcionamento das instituições democráticas.