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Jornal Digital - Notícias em Tempo Real - Posta Restante - 05h29m 12/12/2001
Portugal: Uma Nova Galiza?
Nos inícios de Janeiro de 2001, na sequência de visitas constantes que fiz ao Ministério dos Negócios Estrangeiros com o objectivo de realizar investigações para a publicação da "Compilação de Elementos para o Estudo da Questão de Olivença", da autoria do Embaixador Luíz Teixeira de Sampaio, pude conhecer um antigo diplomata que, também, ali fazia algumas pesquisas históricas.
Estabeleci com ele uma interessante conversa sobre o assassinato do General Humberto Delgado, antigo Presidente da Assembleia Geral do Grupo dos Amigos de Olivença, associação de que fui Presidente da Direcção até Julho desse ano.
Desse diálogo recordo uma preocupante declaração, proferida por esse já reformado embaixador que, pela gravidade do seu teor, deveria preocupar todos os portugueses e especialmente os responsáveis políticos pela diplomacia portuguesa. Disse-me ele: "No meu tempo, aqui nos Negócios Estrangeiros, todos conhecíamos perfeitamente a Questão de Olivença e jamais alguém aceitaria abdicar desse território português. Hoje, nenhum diplomata desta casa sabe coisa alguma sobre Olivença ou sobre a História de Portugal. Todos querem a União Ibérica e pretendem fazer de Portugal uma nova Galiza!".
Em nada me surpreenderam estas palavras. Há muito que perdera a juvenil ilusão de que os políticos que se têm revezado no poder nas últimas três décadas tivessem possuído sentido de Estado suficiente para manter na administração de um ministério tão fundamental à continuidade do Estado o essencial dos seus funcionários, sem enveredarem pela acção sistemática de saneamentos políticos e de ocupação sucessiva dos lugares por meros agentes partidários destituídos de qualquer competência técnica e desprovidos de qualquer espírito de serviço aos interesses nacionais.
Tais asseverações apenas me vieram confirmar, por alguém que conhece perfeitamente os meandros da diplomacia, o que já perspectivara pela observação das nossas relações externas e que me parecera evidente nos contactos esporádicos que fui tendo no Palácio das Necessidades, onde não só se cuidam dos interesses alheios - sobretudo espanhóis - como se fossem nossos, mas onde igualmente domina um temor reverencial para com Madrid e onde muitos baixam o volume da voz quando há que proferir algumas palavras que possam desagradar à Espanha. Segundo veio a público, talvez noticiado na imprensa, o Palácio da Necessidade é já local onde futuros diplomatas espanhóis fazem o seu estágio, em regime de reciprocidade para com os nossos futuros embaixadores que farão o seu tirocínio na defesa da Grande Espanha no madrileno Palácio de Santa Cruz...
Nada é já feito às escondidas. Longe está o tempo em que as Leonores Teles amancebadas com os Condes Andeiros congeminavam fétidos acordos e aleivosas uniões, ocultados nas lúgubres salas dos palácios. Bastam alguns exemplos.
O Primeiro-Ministro "português", no final da Cimeira Luso-Espanhola de Janeiro de 2001, afirmou claramente, sem carecer das dissimulações ou das demagogias em que é supremo mestre, que "Portugal e Espanha aproximaram-se de forma irreversível na construção de um destino comum". Seguindo na mesma senda espanholista, o Ministro dos Negócios Estrangeiros, também formalmente "português", numa conferência proferida na Câmara de Comércio e Indústria Luso-Espanhola, a 10 de Outubro último - sugestivamente intitulada "Portugal e Espanha: Uma Parceria Europeia para o Século XXI" em eloquente hino à podridão iberista das nossas elites dirigentes -, proclamou com gáudio o "futuro comum" dos dois Estados peninsulares, explanando detalhadamente o caminho para a concretização de tal desiderato.
E a 4 de Dezembro último, no jornal "La Vanguardia", o nosso representante diplomático em Madrid, a terceira figura desta conjura peseteira que orgulhosamente afirma ser, não um embaixador de Portugal em Madrid, mas um mero "agente comercial", com magna felicidade proclamou as excelsas virtudes do mercado único peninsular e com tristeza lamentou que nas cabeças de alguns ainda existam fronteiras entre os dois países da Península Ibérica...
Não é a primeira vez que em oitocentos anos de História gente desta se guinda ao comando dos destinos do País. Mas, se não nos apressamos, poderemos não ir a tempo de dar uma estocada fatal no Conde Andeiro e de defenestrar o Miguel de Vasconcelos. É preciso ter cuidado! Os agentes de Espanha instalaram-se em todo o País, ocupando os mais variados lugares, desde o Poder Local até aos Órgãos que ainda chamamos de Sobernania. É preciso ter muito cuidado! O Mestre de Avis e D. João IV podem nunca mais voltar ao Paço!... Pelo menos por agora, o momento é dos apaniguados de D. João de Castela e de Filipe II de Espanha. Até quando?...
Mário Rui Simões Rodrigues
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