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Jornal Digital - Notícias em Tempo Real - Posta Restante - 14h52m 17/12/2001
O Palácio das Necessidades e os Negócios Estrangeiros
O turista incauto que passe junto ao Ministério dos Negócios Estrangeiros, em especial pelo Largo das Necessidades, e que não conheça a história do Palácio, poderá ficar equivocado quanto à origem do seu nome. Terão as "necessidades" algo a ver com a imundice que junto a ele fazem os traficantes e consumidores de droga do Casal Ventoso que impunemente por ali passam deixando um odor pestífero?
Ideia não muito menos luminosa terá quem, sem sofrer padecimentos por aquele cheiro nauseabundo, tentar explicar o nome das "necessidades" pela observação da política externa de Jaime Gama. Chamar-se-á "necessidades" por estar o Palácio carecido de um homem de Estado capaz de orientar a nossa política externa em defesa da Independência Nacional? Advirá o seu nome de faltarem ali políticos e diplomatas imbuídos de espírito patriótico capazes de afirmar Portugal como Estado distinto da Espanha e não como sua fiel e pacificada província, progressivamente transformada na "Grande Olivença"?
A história não consente nem uma nem outra etimologia para o nome de "Palácio das Necessidades". A origem do nome prende-se apenas como uma ancestral ermida que ali se ergueu em honra da N.ª Sr.ª das Necessidades, a quem Portugal bem precisa de rogar mercês que nos livrem dos nefastos efeitos do desvario por que temos passado....
Mas, o que tem sucedido no Palácio facilmente poderia dar origem a outra explicação lendária, daquelas que o nosso posso é pródigo em fabricar. À falta de um verdadeiro Ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal, pontuou nele até há poucos dias um simples Porta-Voz que se confundia com o Ministro e se sobrepunha ao demais pessoal político e diplomático. Acabou exonerado recentemente, com o habitual argumento das "razões pessoais"...
Apesar das últimas mudanças, continua ali a morar - embora apenas nos breves intervalos das suas numerosas viagens - um homem que não entendeu bem a designação do cargo que ocupa, nem compreendeu perfeitamente as funções de que foi investido.
Esse senhor que foi confraternizar como o Presidente da Junta de Extremadura em 19 de Maio passado, nas vésperas de se comemorarem os duzentos anos da ocupação espanhola de Olivença; esse governante que se enerva quase até ficar estérico quando algum jornalista ousa confrontá-lo com a Questão de Olivença; esse político que ordenou ao Ministério Público que recorresse de uma decisão judicial que impedia o Estado português de ceder à Espanha a Ponte de Olivença; esse político que descaradamente mentiu à Assembleia da República respondendo a dois requerimentos de duas deputadas aos quais replicou dizendo não ter o MNE nada a ver com o acordo celebrado com a Espanha para que Madrid reconstruísse um Monumento Nacional português situado no único local entre os dois países peninsulares onde não existem limites acordados; esse cidadão, que tinha no seu horizonte chegar a Presidente da República e que agora, depois da deposição do arquiloquaz e supermodorrento chefe do Governo, se começa a ver alçado a Primeiro-Ministro, continua a não entender o que significa ser Ministro dos Negócios Estrangeiros. Ele que sonha ao lado do camarada Gutierrez com a Grande Ibéria Unida, onde Portugal seja apenas mais outra Galiza, e que em coro com o seu, até agora, chefe de fila vem propalando a parceria peninsular e o destino comum de Portugal e Espanha, não percebe ou não quer perceber que não é o Ministro dos Negócios dos Estrangeiros (sobretudo dos espanhóis) em Portugal. Mas que é ou deveria ser o Ministro dos Negócios de Portugal no Estrangeiro!... Ele, o seu Embaixador em Madrid, o restante pessoal do seu ministério e todos os que ocupam e ocuparão as pastas governativas de Portugal têm de decisivamente integrar no seu espírito que a Política Externa de Portugal não pode confinar-se a ser o prolongamento interino da Política Externa espanhola e que o objectivo primordial do Estado português não é constituir-se em mero instrumento promocional de alguns, mas antes preservar a identidade, a integridade e a perpetuidade do todo que é a Nação Portuguesa!
Mário Rui Simões Rodrigues
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